Pedro Moraleida
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Acervo do Instituto Pedro Moraleida Bernardes
Moraleida: um vulcão de inquietações
Pedro Moraleida (1977-1999) foi um artista mineiro cuja vida breve e intensa produção marcaram profundamente a cena artística brasileira dos anos 1990. Aluno de Belas Artes da UFMG, Pedro produziu mais de 1.500 obras em apenas 22 anos de vida, incluindo pinturas, desenhos, quadrinhos, textos e experiências sonoras. Sua arte, provocativa e visceral, desafiava as convenções da época e permanece relevante até hoje.
Filho de ativistas políticos, Luiz Bernardes e Nilcéa Moraleida Bernardes, que foram presos e torturados pela ditadura militar, Pedro cresceu em um ambiente permeado por questões sociais e políticas. Ele via na arte uma ferramenta poderosa para confrontar o conservadorismo e os paradigmas de sua época. Sua obra frequentemente misturava sexo e religião, cultura pop e erudita, ironia e drama, refletindo uma visão complexa e profundamente crítica do mundo.
Desde a infância, Pedro mostrou uma criatividade inquieta. Inspirado por quadrinhos de Angeli e Laerte, revistas como Mad e Pasquim e filmes de vanguarda, ele já desenhava histórias em quadrinhos aos 11 anos, criando narrativas como A Escova de Dente Assassina e A Revolução da Geração Mickey Mouse. Essas obras infantis, carregadas de humor e crítica, prenunciavam sua necessidade de romper limites, característica que definiu sua produção artística.
Criou uma arte instigante, mesclando surrealismo, automatismo psíquico e temas sociais. Sua técnica peculiar misturava pintura, desenho e literatura, resultando em obras que refletiam tensão e complexidade, típicas de períodos de crise. Essa abordagem multifacetada integrava referências filosóficas, psicanalíticas e literárias, incorporando conceitos de Lacan e Freud. Moraleida buscava abarcar múltiplas áreas do conhecimento, criando conexões febris e inovadoras que lhe renderam comparações com artistas românticos do século XIX.
Pedro era profundamente culto, sensível e irônico, mas tinha um jeito desamparado que transparecia em sua arte. Como um outsider, navegava contra a corrente de tendências contemporâneas que priorizavam instalações e performances, reafirmando a pintura e o desenho como linguagens ainda relevantes e combativas.
A obra de Pedro nunca foi neutra. Ela trazia uma carga crítica que confrontava temas como religião, sexualidade, poder e ideologia. Um exemplo emblemático é a série Presidentes Americanos e Líderes Comunistas Vendem Pornografia, em que líderes como Fidel Castro, Mao Tsé-Tung e John Kennedy aparecem justapostos a imagens de corpos femininos em poses pornográficas. Nessa e em outras obras, Moraleida explorava o grotesco e o escatológico para questionar a hipocrisia dos discursos de poder.
Influenciado por filósofos como Friedrich Nietzsche e escritores como Antonin Artaud, Moraleida abordava questões fundamentais sobre o niilismo e os valores humanos. Em suas obras, cenas de violência e erotismo frequentemente emergem como reflexões sobre a decadência e os limites da moralidade. Ele questionava “Quem e o que devemos louvar?”, em um universo de imagens perturbadoras e desconcertantes.
Após sua morte precoce, em 1999, amigos e artistas se mobilizaram para preservar e divulgar seu legado. A primeira mostra póstuma aconteceu em um hospital infantil abandonado, onde seus desenhos, pinturas e mixagens musicais foram expostos. A exposição destacou temas como a interação entre o humano e a natureza, o paganismo e o cristianismo, conceitos que Pedro integrava em sua ideia de “Vasos Intercomunicantes”, representando um mundo profundamente interconectado.
Pedro recebeu amplo reconhecimento em exposições importantes, como a retrospectiva no Instituto Tomie Ohtake (2018-2019) e sua participação na Bienal de Berlim. A exposição Faça Você Mesmo sua Capela Sistina (2017), no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, apresentou 131 pinturas, 48 desenhos, esculturas e vinhetas musicais, atraindo mais de 20 mil visitantes. Essa mostra destacou a força de sua iconoclastia em um momento em que o Brasil enfrentava censuras reacionárias à produção artística.
O curador Augusto Nunes-Filho destacou como a complexidade da obra de Pedro transita entre a crítica à religião, a política e os costumes sociais. Para ele, Pedro representava a compulsão de um artista que, em pouco tempo, produziu uma obra “desmesurada”, cheia de irreverência e intensidade.
Embora sua vida tenha sido breve, Pedro Moraleida deixou um legado que ultrapassa sua época. Suas obras foram exibidas em capitais como Paris, Montreal, Dubai e São Paulo, destacando-se pela crítica feroz e pela capacidade de incomodar. Como afirmou Angelo Oswaldo, ex-secretário de Cultura de Minas Gerais: “Pedro foi devorado pelo século XX, mas já havia vivido o século XXI”.
As exposições de sua obra, como Faça Você Mesmo sua Capela Sistina e a participação na mostra itinerante Imagine Brazil, destacaram sua relevância no cenário artístico nacional e internacional. Críticos como Hans Ulrich Obrist reconheceram seu trabalho como extraordinário. Mesmo após 26 anos de sua morte, sua arte ainda ressoa, influenciando artistas contemporâneos e desafiando os limites da expressão criativa.
Em janeiro de 2018, a PQNA Galeria do Palácio das Artes foi oficialmente batizada como PQNA Galeria Pedro Moraleida, uma iniciativa da Fundação Clóvis Salgado para reafirmar seu compromisso com a pluralidade artística.













