Oscar Niemeyer

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A vida e a obra do arquiteto que moldou a identidade moderna do Brasil
Oscar Niemeyer Soares Filho nasceu em 15 de dezembro de 1907, no Rio de Janeiro, em uma família tradicional. Formou-se em Arquitetura em 1934, pela Escola Nacional de Belas-Artes, e iniciou sua carreira no escritório de Lúcio Costa, com quem manteve uma parceria duradoura. Desde o início, Niemeyer mostrou originalidade, apostando nas curvas, no concreto armado e na arquitetura como expressão de liberdade, arte e transformação social.
Influenciado por Le Corbusier, com quem trabalhou no projeto do Ministério da Educação e Saúde, Niemeyer foi além do racionalismo funcionalista do mestre europeu. Buscou a leveza, a sensualidade das formas orgânicas e a integração com a paisagem, criando um estilo inconfundível.
Sua primeira obra construída foi Obra do Berço, no Rio de Janeiro, nos anos 1930, já com inovações como o brise-soleil. Em 1939, participou do pavilhão brasileiro na Feira Mundial de Nova Iorque, recebendo a Medalha da Cidade e projeção internacional.
O encontro com Minas Gerais
Em 1940, convidado por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, Niemeyer projetou o Conjunto Arquitetônico da Pampulha. A proposta — formada pela Igreja de São Francisco de Assis, a Casa do Baile, o Cassino (hoje Museu de Arte da Pampulha) e o Iate Tênis Clube e um hotel que nunca chegou a ser concluído — revolucionou a arquitetura brasileira com uma linguagem moderna, leve e integrada à paisagem. Essa parceria com JK se repetiria com grande impacto na construção de Brasília.
Outro projeto relevante em Minas foi o Teatro Municipal de Belo Horizonte, idealizado nos anos 1940 para o Parque Municipal. Embora só décadas depois tenha se concretizado como Palácio das Artes, o conceito original — de um espaço cultural moderno e monumental em meio ao verde urbano — permaneceu como referência simbólica e arquitetônica.
Compromisso político e exílio
Niemeyer sempre foi comprometido com ideais socialistas. Filiado ao Partido Comunista, enfrentou perseguições durante a ditadura militar e, em 1966, exilou-se em Paris com autorização do presidente Charles de Gaulle. Na França, projetou obras como a sede do Partido Comunista Francês e centros culturais em Bobigny, Le Havre e Argel. Seu trabalho espalhou-se pelo mundo: universidades na África e Oriente Médio, museus, sedes governamentais e centros culturais. Sua arquitetura dialogava com o entorno, apostando nas curvas como símbolo de liberdade criativa.
Brasília e o reconhecimento global
A construção de Brasília entre 1956 e 1960 consolidou Niemeyer como um dos maiores arquitetos do século XX. Com Lúcio Costa no plano urbanístico e Niemeyer responsável pelas edificações principais, surgiram obras icônicas como o Congresso Nacional, a Catedral Metropolitana, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.
Recebeu diversos prêmios, como o Prêmio Lênin da Paz, o Prêmio Pritzker de Arquitetura (1988) e o Príncipe de Astúrias das Artes (1989). Foi homenageado em instituições como o Louvre, o Centre Pompidou, o MAM-Rio e centros culturais da Europa e América Latina.
Volta ao Brasil e legado
Com o fim da ditadura, Niemeyer voltou ao Brasil e deu sequência a projetos de grande impacto, como o Memorial da América Latina (1987), o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1991), o Auditório Ibirapuera (2005) e o Museu Nacional da República (2006). Também projetou o Sambódromo do Rio de Janeiro e os CIEPs, escolas de tempo integral criadas por Darcy Ribeiro.
Mesmo centenário, manteve-se produtivo e criativo. Faleceu em 5 de dezembro de 2012, aos 104 anos, deixando uma obra que combina rigor técnico, invenção formal e compromisso social.
Niemeyer e Minas Gerais: uma herança viva
Minas Gerais abriga uma das maiores coleções da arquitetura de Niemeyer, com 55 projetos (entre realizados, demolidos, não executados ou atribuídos), distribuídos em 13 municípios. A maioria foi concebida entre 1938 e o fim da década de 1950, período marcado por profundas transformações urbanas e culturais em Minas.
Foi nesse momento que Niemeyer consolidou seu estilo: liberdade formal, integração entre arte, paisagem e espaço público, e uso inventivo do concreto. A Pampulha é o exemplo mais emblemático. O conjunto — tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 2016 — sintetiza a arquitetura moderna com identidade brasileira.
Outros projetos marcantes incluem os edifícios JK, Niemeyer e o antigo prédio do Banco Mineiro da Produção, a Passarela da Liberdade e, décadas depois, a Cidade Administrativa do Governo de Minas Gerais, inaugurada em 2010 como sua última grande obra pública no estado.
Teatro Municipal de Belo Horizonte: arte e modernidade
O projeto do Teatro Municipal, elaborado entre 1941 e 1942, fazia parte de um plano mais amplo que incluía também o Fórum e a Biblioteca Pública. Embora não executado à época, o projeto revelou desde cedo a ousadia de Niemeyer: uma volumetria fluida, curvas marcantes, integração com o Parque Municipal e espaços pensados para o convívio estético e social.
Em suas memórias, Niemeyer escreveu: “Procurei fazer um teatro que fosse ao mesmo tempo funcional e belo, onde as curvas expressassem a liberdade criativa que eu acreditava necessária para a arquitetura. Belo Horizonte merecia um espaço que representasse essa modernidade”.
No do Palácio das Artes existe hoje o Passeio Niemeyer, em sua homenagem.















