JOÃO ETIENNE FILHO
![JEF_PERFIL_CLARA-ARREGUY_-joao-Etienne-jovem-by-Wilson-Baptista[DILA].jpg](https://static.wixstatic.com/media/6180f1_2f6cb1bf4342470b93ece1a5012edf7a~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_980,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/JEF_PERFIL_CLARA-ARREGUY_-joao-Etienne-jovem-by-Wilson-Baptista%5BDILA%5D.jpg)
Clara Arreguy/Arquivo de família
Um mestre da cultura mineira que marcou gerações
João Etienne Filho foi uma figura multifacetada e essencial na formação intelectual e artística de diversas gerações. Intelectual, professor, escritor, homem de teatro, militante católico e desportista, Etienne foi um dos grandes pilares da vida cultural mineira, deixando um legado que ultrapassou o tempo e os limites provincianos.
Nascido em Caratinga, em uma família numerosa e humilde, Etienne veio para Belo Horizonte em 1929, aos 11 anos, ao lado de sua mãe, Dona Glorinha, professora primária que integraria à primeira turma da Escola Nova, liderada pela educadora Helena Antipoff. Sua chegada à capital marcou o início de uma trajetória que seria determinante para a cultura e educação do estado. Estudante brilhante, conquistou uma bolsa de estudos no Colégio Arnaldo, onde despertou a atenção dos padres pela sua inteligência singular.
Aos 17 anos, o talento precoce de Etienne garantiu-lhe o primeiro lugar em um concurso promovido pela Cúria Metropolitana, integrando a equipe do jornal O Diário. Sob a tutela do arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral, Etienne rapidamente se destacou no jornalismo e no universo intelectual, não apenas pela sua inteligência, mas também pelo rigor e pelo senso crítico.
Foi nesse ambiente que cruzou caminhos com jovens escritores promissores como Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos – os célebres “quatro cretinos iluminados”, como ele os chamava, com sua inconfundível ironia afetuosa. Esses encontros, regados a debates na Praça da Liberdade e cartas trocadas com o “irmão maior” Mário de Andrade, ficaram imortalizados na obra O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, que narra parte dessa convivência e os diálogos inspiradores entre esses jovens talentos e o mentor exigente que era Etienne.
A convivência com essas mentes brilhantes consolidou sua posição como uma referência intelectual. No entanto, a inquietação que sentia com os limites da produção cultural em Minas o levou ao Rio de Janeiro em 1946, onde trabalhou em jornais e se aproximou da intelectualidade católica, tornando-se secretário de Alceu Amoroso Lima, um dos maiores pensadores católicos do Brasil. Essa parceria rendeu contribuições valiosas à filosofia, teologia e literatura, além de lhe conferir o título de “secretário perpétuo” do Grêmio Literário Tristão de Ataíde.
Apesar do sucesso na capital carioca, Etienne retornou a Belo Horizonte no início dos anos 1950, movido pela saudade da família e pela necessidade de reencontrar suas raízes. Foi nesse período que ele consolidou sua paixão pelo teatro, uma herança paterna. Dirigiu montagens memoráveis com familiares e amigos, incluindo O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, que recebeu elogios do próprio autor. Atuou também no Teatro Universitário da UFMG, ao lado de nomes como Haydée Bittencourt e Otávio Cardoso, deixando uma marca indelével como formador de talentos.
Paralelamente, Etienne dedicou-se ao magistério, lecionando história, teatro e literatura em instituições renomadas, como o Colégio Estadual Central e a Fafi-BH. Foi chamado de “professor” por todos que o conheciam, tamanha era sua influência na educação mineira. Estima-se que ele tenha lecionado para “meia Belo Horizonte”, inspirando alunos que mais tarde se destacariam em diversas áreas.
Etienne também se destacou como escritor, publicando dois livros de poesia – Dia e Noite (1947) e As Desesperanças (1957) –, além de um livro de contos, Os Tristes. Membro da Academia Mineira de Letras desde 1960, sua produção literária refletia uma sensibilidade ímpar e uma visão crítica do mundo que o cercava.
Nos últimos anos de vida, Etienne se tornou uma figura simbólica do teatro e da literatura mineira, sendo homenageado em diversas produções culturais. Em 2018, ano em que completaria 100 anos, seus antigos alunos do Colégio Estadual Central, turma de 1965 a 1967, prestaram uma homenagem emocionante na Cantina do Lucas, no edifício Maletta, onde descerraram uma placa com o poema “Isto é meu!”, escrito por ele.
João Etienne Filho, com sua biblioteca de milhares de volumes, sua paixão pela arte e sua dedicação à formação de gerações, permanece uma referência incontornável na história cultural de Minas Gerais. Seu exemplo de vida ilumina os caminhos daqueles que acreditam no poder transformador da educação, da arte e da cultura. Em homenagem a Ettiene, o Palácio das Artes batizou com seu nome a midiateca do complexo.





















