JOÃO CESCHIATTI

Acervo do Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã.
Um militante do teatro popular
Quem digitar “João Ceschiatti” em qualquer buscador de informações da internet terá acesso imediato à agenda do teatro de arena que leva seu nome, localizado nos porões do Palácio das Artes. O que poucos sabem, no entanto, é que essa sala de espetáculos, inaugurada na década de 1980, durante a gestão de Jota Dangelo, homenageia um dos maiores pioneiros das artes cênicas de Minas Gerais.
Filho de uma família italiana, João Ceschiatti nasceu na Rua dos Tamoios, 454, no Barro Preto, e tornou-se uma figura central no teatro mineiro. Ainda menino, era requisitado como figurante por companhias de ópera italianas que passavam pela cidade, sempre indicado pelo Sr. Travassos, diretor do Teatro Municipal. Sua inclinação artística também chamou a atenção dos padres salesianos do colégio onde estudava, o que o levou a participar de peças amadoras organizadas na escola. Com apenas 13 anos, conseguiu incluir um festival de teatro na programação do Teatro Municipal, cuja renda foi destinada às obras da Igreja de São Sebastião.
A década de 1940 marcou um período de transformação cultural em Belo Horizonte, com a industrialização e o crescimento urbano. O teatro mineiro começou a se expandir, mesmo sem um espaço municipal ideal, com o surgimento de grupos teatrais em cineteatros, auditórios e apresentações pelo interior do estado.
Foi nesse contexto que, em 1940, Luiz Gonzaga Ribeiro de Oliveira fundou o Teatro do Estudante. Em 1946, João Ceschiatti foi convidado a reorganizar o grupo, com o objetivo de incentivar o gosto pelas artes cênicas entre os jovens e elevar a qualidade das produções teatrais. Sob sua liderança, o grupo realizou apresentações de destaque em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, incluindo o prestigiado Teatro Regina.
Além do Teatro do Estudante, Ceschiatti fundou e dirigiu o Teatro Estudantil Mineiro. Um marco dessa trajetória foi a montagem da peça Espectros, de Ibsen, com cenários de Guignard, apresentada em um evento estudantil em plena capital federal, durante o Estado Novo. Essa iniciativa contou com o apoio do Palácio da Liberdade.
Em 1947, Ceschiatti tentou estabelecer um espaço permanente para o teatro em um terreno de sua propriedade, mas sem recursos suficientes para construir uma escola de teatro. No mesmo ano, foi contratado pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) para criar um grupo de teatro com e para operários. Entre 1950 e 1964, o Teatro do Sesi tornou-se um dos grupos mais estáveis de Belo Horizonte, apresentando peças como Judas no Sábado de Aleluia e O Noviço, de Martins Pena; O Avarento, de Molière; A Sapateira Prodigiosa, de García Lorca; e Medeia, de Eurípedes. As apresentações eram gratuitas e lotavam o Teatro Francisco Nunes, atraindo trabalhadores e suas famílias.
Ceschiatti também desempenhou um papel crucial na formação de novos talentos, lançando nomes como Léa Delba, Palmira Barbosa, Ezequias Marques, Ítalo Mudado e Antonio Naddeo. Contudo, sua trajetória no Sesi foi interrompida em 1964, ano do golpe militar, o que levou à dissolução do grupo.
Já em sua velhice, distante dos palcos e enfrentando dificuldades financeiras, Ceschiatti passou a administrar um restaurante em sua casa natal, aberto exclusivamente para amigos e conhecidos. Esse espaço tornou-se ponto de encontro de artistas renomados, como Henriette Morineau, Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Tônia Carrero, entre outros. Para sobreviver, ele chegou a vender obras de arte de seu acervo pessoal, que incluía trabalhos de Guignard, Inimá de Paula e de seu irmão Alfredo Ceschiatti.
Em reconhecimento à sua contribuição ao teatro mineiro, a Associação Mineira de Críticos Teatrais criou, em 1983, o Troféu João Ceschiatti, com seu busto esculpido em pedra-sabão. Já debilitado, ele recebeu uma pensão vitalícia concedida pelo então governador Hélio Garcia. Em 1984, o Palácio das Artes inaugurou o teatro que leva o nome do ator e diretor, que faleceu em 8 de agosto de 1987, deixando um legado indelével para as artes cênicas de Minas Gerais.














