ISRAEL PINHEIRO

Acervo Arquivo Público Mineiro
Israel Pinheiro e o Palácio das Artes: cultura e desenvolvimento em Minas Gerais
Israel Pinheiro da Silva é um dos nomes mais emblemáticos da história política e cultural de Minas Gerais no século XX. Nascido em Caeté, em 4 de janeiro de 1896, formou-se em Engenharia Civil e de Minas pela tradicional Escola de Minas de Ouro Preto, uma das mais respeitadas instituições de ensino técnico do Brasil. Desde cedo, demonstrou habilidade não apenas com os cálculos e as estruturas, mas também com a política e o pensamento estratégico de desenvolvimento nacional.
Sua trajetória pública começou a ganhar destaque a partir da década de 1940, quando foi nomeado por Getúlio Vargas para a presidência da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), em 1942. À frente da estatal, Israel Pinheiro consolidou a infraestrutura logística da empresa e expandiu suas operações de mineração, especialmente na região de Itabira. Sua gestão foi marcada pelo fortalecimento da empresa como símbolo do nacionalismo econômico e pela defesa da soberania brasileira sobre os recursos naturais. A atuação na Vale o projetou como um técnico de confiança e defensor do papel do Estado na promoção do desenvolvimento industrial.
Com o fim do Estado Novo e a redemocratização, Pinheiro foi um dos fundadores do Partido Social Democrático (PSD), legenda de centro que reunia setores técnicos e políticos ligados ao getulismo moderado. Em 1945, foi eleito deputado federal constituinte e, durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, defendeu a regulamentação da economia e a intervenção estatal em áreas estratégicas, como energia e transportes.
Nos anos seguintes, Israel Pinheiro tornou-se um importante articulador das políticas de modernização do país. A afinidade com Juscelino Kubitschek, então governador de Minas, transformou-se em parceria política quando JK chegou à Presidência da República, em 1956. Pinheiro foi nomeado presidente da Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital), responsável pela monumental tarefa de erguer Brasília do cerrado goiano. Ele coordenou o projeto, fiscalizou obras e mediou conflitos com empreiteiras e órgãos públicos. Em 1959, foi nomeado o primeiro prefeito da nova capital federal, função que acumulou com a presidência da Novacap até 1960.
A experiência na construção de Brasília reforçou sua imagem como gestor eficiente e homem de visão. Mesmo fora da política nos anos seguintes, manteve forte influência nos bastidores e no planejamento de obras públicas. Em 1965, já com quase 70 anos, decidiu disputar o Governo de Minas Gerais, em uma eleição histórica. Foi o último governador mineiro eleito pelo voto direto antes do endurecimento do regime militar, que proibiria eleições para cargos executivos a partir de 1966. Apesar das dificuldades impostas pelo contexto político repressivo e pelo apoio velado dos militares ao seu adversário, Israel venceu com o apoio das forças democráticas e desenvolvimentistas de Minas.
Assumiu o Governo de Minas Gerais em 1966, num cenário de forte instabilidade institucional e com severas limitações orçamentárias. Ainda assim, conduziu uma gestão pautada pelo compromisso com o desenvolvimento regional, a descentralização administrativa e os investimentos em educação e cultura. Uma de suas principais iniciativas nesse campo foi a viabilização do Palácio das Artes, projeto concebido por Oscar Niemeyer ainda nos anos 1950, mas que havia sido paralisado por falta de recursos e apoio político.
Ao retomar o projeto, Israel criou a Comissão Especial Palácio das Artes (CEPA), responsável por revisar o projeto, levantar recursos e conduzir as obras. Sua visão era clara: a capital mineira precisava de um equipamento cultural de porte internacional, que pudesse abrigar espetáculos de música, teatro, dança, artes plásticas e, ao mesmo tempo, formar novos talentos. A proposta não era apenas erigir um prédio moderno, mas criar um centro dinâmico de produção cultural, acessível à população e conectado às vanguardas artísticas.
Durante sua gestão, foram inauguradas as primeiras exposições do Palácio, como O Processo Evolutivo da Arte em Minas (1970), que traçava um panorama da produção artística do estado, e a Semana Nacional de Vanguarda, um marco do experimentalismo brasileiro nas artes visuais e performáticas. O espaço se consolidou como ambiente de trocas, encontros e formação de artistas, acolhendo jovens estudantes da Escola de Belas Artes e abrindo suas salas a movimentos artísticos emergentes.
Em 1971, já ao final de seu governo, foi inaugurado o Grande Teatro do Palácio das Artes, em uma noite histórica marcada pela apresentação do oratório O Messias, de Häendel, sob regência do maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca. A inauguração simbolizava o compromisso de Israel com uma política cultural que não fosse apenas decorativa ou elitista, mas estruturante e acessível.
A criação do Palácio das Artes marcou definitivamente a vida cultural de Minas Gerais. O complexo tornou-se referência na América Latina, integrando música erudita, popular, ópera, dança, cinema, literatura e artes visuais em um mesmo espaço, no coração da capital mineira. Hoje, o Palácio é sede da Fundação Clóvis Salgado e continua a cumprir o papel de difusor e formador cultural, mantendo vivo o legado de seu idealizador.
Após deixar o governo, manteve-se ativo nos bastidores políticos e continuou acompanhando de perto projetos de desenvolvimento regional. Ainda que o regime militar houvesse imposto restrições à atuação dos políticos civis, Israel preservava interlocução com lideranças democráticas e com setores empresariais interessados em um projeto de modernização com inclusão social. Israel Pinheiro faleceu em 6 de julho de 1973, em Belo Horizonte, aos 77 anos. Seu busto está no Foyer do Grande Teatro Cemig do Palácio das Artes.













