top of page
ESME_PRETO.png

ALBERTO GUIGNARD

AVG_PERFIL_ALBERTO-GUIGNARD_1xq.jpg

Poesia, modernismo e liberdade no ensino da arte

Alberto da Veiga Guignard ocupa um lugar singular na história da arte brasileira. Nascido em Nova Friburgo, em 1896, viveu na Europa entre 1907 e 1929, onde formou-se na Real Academia de Belas Artes de Munique. Essa formação europeia refinada e o contato com artistas modernos moldaram sua visão estética. Ao retornar ao Brasil, Guignard estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde lecionou na Fundação Osório e criou o chamado Grupo Guignard. Desde então, sua trajetória se destacou pelo esforço em conciliar tradição e inovação, sem jamais se prender a convenções.

Foi na década de 1940, contudo, que Guignard viveu um de seus capítulos mais marcantes. A convite de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, mudou-se para a capital mineira com a missão de fundar uma escola de arte. Em meio às transformações modernizadoras promovidas por JK — como o Conjunto da Pampulha e a Exposição de Arte Moderna de 1944 —, nascia o Curso Livre de Desenho e Pintura, embrião da hoje consagrada Escola Guignard, da Universidade Estadual de Minas Gerais.

A chegada de Guignard a Minas Gerais marcou um divisor de águas. Com sensibilidade, lirismo e uma metodologia inovadora, ele revolucionou o ensino artístico, rompendo com o academicismo tradicional. Seu ensino era baseado na observação, na liberdade criativa e na empatia. Não havia rigidez: alunos e professores conviviam em um ambiente horizontal, muitas vezes compartilhando responsabilidades diante da escassez de recursos. A própria decoração da escola — com fósseis, reproduções de obras clássicas e objetos inusitados — criava um espaço fértil para a experimentação.

A escola se tornou, rapidamente, um polo de vanguarda. O ambiente era marcado por debates, palestras e encontros com nomes como Burle Marx, Portinari e Franz Weissmann. Artistas como Inimá de Paula, Amilcar de Castro, Álvaro Apocalypse, Mary Vieira e Yara Tupynambá foram formados ali. As aulas, inicialmente realizadas no Parque Municipal, fundiram natureza e arte de modo inseparável.


Mas o caminho não foi isento de desafios. Em 1948, a escola foi desalojada por decisão do prefeito Otacílio Negrão de Lima, crítico da arte moderna. Seguiu-se então uma verdadeira peregrinação por espaços improvisados. A situação se reverteu em 1950, graças à mobilização dos estudantes. Nesse momento decisivo, a escola foi instalada no Palácio das Artes — ainda inacabado —, também dentro do Parque Municipal. Esse período representou uma fase simbólica e poderosa da Escola Guignard.

O Palácio das Artes, mesmo incompleto, ofereceu à escola uma nova dimensão. A grandiosidade do espaço contrastava com a precariedade dos recursos, mas também reforçava o espírito de resistência e invenção. Ali, Guignard e seus alunos construíram uma das fases mais vibrantes de sua história. A convivência diária com o teatro, a música e outras formas de arte no mesmo complexo favoreceu a interdisciplinaridade e consolidou a escola como epicentro de uma cena cultural em plena ebulição.

A tentativa de fusão da Escola Guignard com a Escola de Belas Artes do pintor acadêmico Aníbal Mattos, promovida pela prefeitura, gerou forte resistência. Guignard e seus aliados lutaram pela autonomia da instituição, que acabou reconhecida legalmente após disputas judiciais.

Mais do que um espaço de ensino, a Escola Guignard no Palácio das Artes se tornou um lugar de liberdade estética e resistência cultural. Foi ali que se sedimentou o modelo pedagógico livre e sensível idealizado por Guignard, no qual o rigor técnico convivia com a intuição, a ternura e a poesia.

Ao longo de sua vida, Guignard expressou na pintura a mesma leveza com que conduziu o ensino: sua obra mistura tradição europeia e lirismo brasileiro, transpondo montanhas, igrejas coloniais e céus indefinidos para telas repletas de emoção. Com cores sutis e composições quase etéreas, ele deu forma visual à alma de Minas.

Como afirmou o poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, Guignard era “íntimo do maravilhoso”. Já Oswald de Andrade o chamou de “Santo Alberto da Veiga Guignard”. E em um autorretrato de 1959, o próprio artista se pintou de costas, sobre um monte, diante de Sabará, com a legenda: “Santo Guignard, padroeiro da paisagem brasileira”.

Alberto da Veiga Guignard morreu em 1962, mas sua herança permanece viva: na escola que leva seu nome, em cada paisagem mineira que carrega seu lirismo e na história da arte brasileira, que ele ajudou a reinventar com doçura, coragem e generosidade.

Em homenagem a esse mestre da cultura nacional, o Palácio das Artes batizou sua maior galeria com seu nome: a Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard. Com 510 m², esse é o maior espaço expográfico do complexo, concebido para grandes exposições e reconhecido em todo o Brasil.
 

Acervo Museu Casa Guignard / Diretoria de Museus / Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais

ESME_CHANCELA_SITE2.png
bottom of page